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Lusas

Subiu o avião e eu ouvi "Daysleeper", do REM. Aquela música que fala dos transtornos mentais de quem trabalha a noite.

Enquanto a aeromoça se afivelava na minha frente em sua pequena poltrona, e o avião corria na pista, lembrei das horas de vôo do meu pai. Dos aeroclubes no interior do caixa prego. Das noites passadas em banco de praça.

Lembrei das minhas noites em claro. Pensei no quanto os "bons momentos" dependem dos momentos menos bons. Do sangue de quem trabalha? Talvez seja isso. Do sono perdido. De uma ânsia estranha em querer fazer tudo certo e "ir pra frente".

Não, esse não é um elogio do trabalho. Tampouco uma ode ao descanso. Os dois bondes estão recolhidos. QTI 17. Observo os motorneiros da cidade. Vejo a mim neles. Nas minhas férias, sempre observo as pessoas que trabalham e me vejo nelas. Cansada, automática, tomando café sem parar, sonhando acordada.

Fazem eco as palavras antiquadas: "trabalhadores de todo o mundo, uni-vos".

Rapidamente soterradas por anúncios publicitários de aeroporto.

Estar em Portugal é ser e não ser estrangeiro ao mesmo tempo. Sensação mais esquisita! E sim: eles são desorganizados como nós. Talvez até mais. E existe no ar um quê inexplicável de Brasil. E muita melancolia no mar em frente à torre de Belém.

Assim como Brasil é o eterno país do futuro, Portugal é o eterno país do passado.

A chegada de manhã. As ruas vazias. Amanhece somente as 8 no outono. Uma sensação de "cidade" que certamente pertence à década de 70.
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