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Sabiá

Enquanto o dia amanhecia e os passarinhos cantavam auspiciosamente, lá estava ele, o sabiá preso na retificadora de alta tensão. Há dois dias, disseram os guardas. Meu colega sozinho na estação e eu ali, apressada, repondo alarmes. A princípio, pensei que a presença do sabiá fosse uma mariposa. Saí da retificadora sem me importar muito: "ele vai entrar por onde saiu". Não pensei que não existem entradas para um sabiá ali. Depois o guarda revelou: "ela" (para eles o pássaro era fêmea) se esgueirou pela janela basculante e entrou. Por uma fresta. Após ouvir a história, resolvi voltar, atendendo os pedidos dos guardas.

Abro as duas portas e nada. O bicho voa assustado, esgotado, sem atinar com as saídas disponíveis. Pousa várias vezes sobre os barramentos de 22 mil volts, e eu não consigo imaginar contraste maior entre leveza, delicadeza, e brutalidade. Não consigo espantar ele dali: o barramento, inofensivo pra ele, para mim é fatal, bicho ligado à terra. O dia amanhecia mas seria sempre um pesadelo pro passarinho preso ali, um sonho mau de chiados de alta tensão, sons metálicos, estrondos.

Não alimento pelos animais um amor que falseia um "naturalismo" que não possuímos. Somos milênios de cultura. Somos os criadores do horror e glória da energia aprisionada. Avisei a central: os restos do bicho morto podem danificar os equipamentos. Torci, logicamente, um pouco para que ele saísse vivo dali. Mas foi o guarda quem me alertou. Não fosse isso, a indiferença - a mesma que temos pelos frangos que comemos - teria prevalecido.
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