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Chalámov

Para além da consciência aguda da vida que brota do estado de extrema privação, o que se destaca no livro de Chalámov é a ausência de contraste interior.

Explico melhor: em Primo Levi, outro grande autor dos campos de concentração do século XX, temos a onipresença narrativa de uma noção burguesa de "dignidade do sujeito" que está sendo sistematicamente pisada e humilhada pelo ambiente e pelas autoridades nazistas.

Mas a Rússia não é exatamente a Europa: na Rússia a noção de "individualidade burguesa" nunca chegou a se conformar de forma plena (assim como no Brasil). A noção da "dignidade da pessoa humana" é uma frase na constituição brasileira. Talvez seja um ideal russo. Só isso.

No livro de Chalámov isso aparece de forma nítida na forma da narrativa. A violência e a privação surgem sem matizes: como se sempre tivessem existido e o bárbaro campo de prisioneiros seja somente uma forma extremada dessas práticas. Assim como a neve cobre tudo, no caráter russo a violência cobre tudo em tons de branco sujos de sangue. Em termos de arte, o assunto rende "menos" do que no caso de Primo Levi, pois a ausência do contraste provoca uma monotonia que embota o pensamento.

A história diz: a ignorância nos priva da consciência da dimensão da violência. A pobreza material se transforma, no longo prazo, numa pobreza espiritual incapaz de ver no horizonte o verdadeiro sentido da palavra "dignidade".

Chalámov poderia tranquilamente ser um autor do século XXI. Primo Levi, não.
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