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futuro e passado

Nas noites de verão, eu e meu amigo de infância brincávamos de jogo de memória. Era um jogo da companhia CPFL, na qual o pai do meu amigo trabalhava. Todas as hidrelétricas do Brasil estavam representadas ali. Lembro de Barra Bonita, Sobradinho, Furnas, Ilha Solteira, Marimbondo. As pequenas cartas tinham fotos de cachoeiras, rios, edificações das usinas. Eu adorava jogos de memória. Sempre fui boa neles. No tampo escuro da mesa de madeira, aquele jogo significava o fim do dia, o jantar próximo, o acolhimento das luzes da casa em meio ao escuro que reinava ao redor. O anoitecer sempre foi meu momento preferido do dia. Aquela hora em que a luz do sol some e as luzes artificiais se acendem. O anoitecer sempre foi, pra mim, uma promessa de um sentido maior, de uma luz interior pra longe da ofuscação solar.

As figuras na mesa evocavam lugares distantes. As figuras na mesa eram, estranhamente agora percebo, meu futuro: Emiliano havia trabalhado em Marimbondo, medindo as terras para a construção da usina. E eu trabalharia operando equipamentos de tensão, um dia. E durante as noites, que sempre foram queridas para mim.

Eu gosto de memória, mas não sabia que ela projetava o futuro também. Estranho isso. (Embora o futuro verdadeiro esteja, neste momento e para todos nós, no escuro mais profundo do meio do mato, lá onde a putrefação acontece).
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