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Boi morto

Não, eu não gosto de bichos, ou melhor: não alimento por eles a idolatria das redes sociais ou faço deles um escape pra minhas carências. Na última noite da rodada, havia um cachorro na praça da estação. As quatro e dez da manhã, fui ver o bicho, irritada pelas burocracias que deveria enfrentar para retirá-lo dali.

Havia convulsionado no fim da noite. Aparentemente, estava intoxicado. Ao seu redor, um pedaço de camiseta sujo, um pratinho com carne, vômito do próprio bicho e, nas proximidades, o vômito de um bêbado. O cachorro em si estava sobre um pedaço de isopor. Alguém havia tentado dar algum conforto pro animal - aquele tipo de caridade pela metade que mais atrapalha do que ajuda. Porque afinal ninguém o levou para um veterinário.

Porque a morte assusta. Fosse uma cachorra parida com seus filhotes, a comoção seria geral. Os cuidados, inúmeros. Os visitantes, vários. A vida, a vida imunda, atrai e comove as pessoas. A morte não. A morte atemoriza. Apavora. Enoja.

Naquela sujeira toda, a morte do cachorro era limpa como uma fogueira hindu.

Explico melhor. Meu ódio se transformou em algo sem nome ao olhar o cachorro. De porte mediano, cachorro de rua. Os olhos dele olhavam para onde? Para onde olham os olhos dos bichos e gentes que morrem?

Um fio de luz sagrada saia dos olhos do cachorro, abertos, que não piscavam mais. Por vezes ele respirava e sacodia de leve as orelhas. Já estava em outro lugar. Já era chão, misturado à terra e ao vomito.

Mas o que mais me apavorou - e de certa forma perturbou minha primeira folga - foi que, ao ver os olhos do cachorro, pensei: "todos nós seremos esse cachorro um dia. A morte iguala não somente as pessoas, a morte nos iguala com os bichos, o nada assola todos nós".

Foi isso que pensei, sentindo dentro de mim o mesmo abismo que sinto, às vezes, antes de dormir, deitada na cama contemplando o escuro que antecede o abismo do sonho.

Mas havia uma estação para abrir, e olhos que ainda contemplariam um tanto de movimento e luz e vida antes de se depararem com aquilo que o cachorrinho via naquele momento.
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