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Macabéa

Na estação Ana Rosa, há uma loja de roupas femininas. Dia desses passei por lá e namorei um vestido preto, com bolinhas brancas. Entrei pra perguntar o preço mas não levei - estava sem meu cartão.

Hoje, voltei lá e perguntei pelo vestido, que não estava mais na vitrine. A vendedora procurou pra mim. Enquanto eu estava na loja, um rapaz bem simples escolhia um vestido pra namorada. Falava baixo, visivelmente desconcertado por estar ali, único homem na lojinha cheia de mulheres. Mesmo assim, escolheu com cuidado o vestido. Sabia do gosto da namorada. Em nenhum momento eu olhei pra ele diretamente, com receio de deixar ele mais sem graça.

Saí da loja com a impressão de ter encontrado, ali naquela loja cheia de ruídos de trem, o espírito de Macabéa. Ou o sorriso amargo da Clarice Lispector. Provei o vestido por sobre minha roupa. O corpo moído pelo trabalho. 65 reais.

"Macabéa eh café frio", "Macabéa só faz chover". E a Macabéa era eu. Não era o moço simples, nem a namorada dele, que soube se fazer amar ao ponto de ele ter o cuidado e a coragem de se enfiar numa loja de roupas femininas e comprar um vestido que talvez ela receba com desdém - pois quem sabe se fazer amar sempre sabe desprezar.

A Macabéa era eu, que sempre me banquei, que hoje consigo comprar os sapatos e roupas mais bacanas, mas que saí sozinha da loja. Com algo que comprei pra mim mesma. Um vestido de bolinhas. Espero até hoje a coragem e a delicadeza de um homem que entre num estabelecimento - de roupas, chocolates, flores - e compre algo pensando em mim como aquele rapaz fez.

No ônibus sorri amargamente e pensei: "esse homem sou eu". Essa Macabéa sou eu, também. Chovia.
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