?

Log in

LiveJournal for buriedbird.

View:User Info.
View:Friends.
View:Calendar.
View:Memories.
You're looking at the latest 20 entries. Missed some entries? Then simply jump back 20 entries.

Sunday, November 6th, 2016

Subject:Festa da lata
Time:12:18 pm.
Lá no Porto, no domingo, os estudantes fizeram a "festa da lata". Correram pela rua com latinhas pintadas, se reuniram, tomaram conta da cidade.

Achamos, a princípio, que fosse um protesto. Depois de percebermos que era uma festa, esperamos pelas abordagens inconvenientes, pelas bebedeiras, pela música alta, pela degradação.

Não teve nada disso. Os estudantes se reuniam para conversar e curtir o domingo. Se bebiam, não era com o pretexto de avacalhar nada. Era uma festa de verdade. Era uma confraternização a moda antiga.

Barulho, desrespeito, sexo ao ar livre, nada disso é "cultura". O nome disso aí é subdesenvolvimento. Esse mesmo subdesenvolvimento fez a gente acreditar que a festa era um protesto.

Às vezes você precisa estar um pouco longe de casa pra perceber que vive na merda e que no seu país justamente quem não é pobre procura enfeitar a degradação dos outros, chamando ela de "cultura", de "empoderamento", de "representatividade". O que acontece no Brasil de hoje com os jovens tem somente um nome: degradação. De brinde vem o analfabetismo funcional, do qual brota uma politicalha que não levará nunca a lugar nenhum. Aí você vê professor que da aula em escola particular ou universidade "emocionado com ocupação", dando aula em ocupação etc.

Realmente, é facinho encarar esse mundo meia dúzia de vezes por ano. Eu queria ver esse povo levando cuspe na cara de aluno arrogante e burro o ano inteiro. E depois falando em "representatividade" e o caramba a quatro.

O buraco é bem mais embaixo: estamos no limiar de nos transformarmos em uma espécie de Índia, com suas castas, e com o bônus de um discurso de esquerda mais do que esvaziado: um discurso cheio de má fé, porque oriundo justamente de uma "casta" cujo estilo de vida passa longe das massas. Afinal quem é mesmo que acorda as quatro da manhã? Os intelectuais jamais.

(Sim, eu ouvi de um fulano "super de esquerda" que passou de forma mais do que escusa em um concurso da universidade pública que a cabecinha dele "não funciona de manhã").

Democracia é vida digna pra todo mundo, não é exaltação da degradação e da miséria não. Há uma tendência a achar que disciplina e seriedade são coisas "burguesas", da direita, e que bastam boas intenções para que a educação brote do nada, e com ela todo o Iluminismo junto. E esse discurso vem muitas vezes do mesmo professor que da aula naquele colégio super rígido pra alunos ricos, do mesmo professor que cobra "rigor" dos alunos na universidade. Basta ele abafar a má consciência dele em algum projeto na periferia, duas vezes por ano, que tá tudo certo.

Num país em que o Dória foi eleito pela periferia, o que dizer, o que esperar? Assim como não tenho rabo preso, não tenho esperança.
Comments: meet ze monsta.

Subject:Sonho
Time:12:17 pm.
A melancolia também faz o seu trabalho. Marcel Proust dizia que vivemos no mínimo duas vezes: na realidade e na lembrança. Hoje o sono matinal, após o banho, me trouxe de volta o mapa mental dos lugares onde andei em Lisboa. Estava tudo ali: a praça dos Restauradores, o Rossio, Alfama, do outro lado o bairro alto. As amplidões das praças de Lisboa. Seu ar noturno cheio de promessas. A cidade, então, se instalou somente hoje no meu coração descansado, longe da pressa e do afã de conhecer tudo. O trabalho dos pés cansados encontrou seu sentido: nos horizontes cercados por água, saudade e promessa.
Comments: meet ze monsta.

Sunday, October 23rd, 2016

Subject:Lusas
Time:8:49 pm.
Subiu o avião e eu ouvi "Daysleeper", do REM. Aquela música que fala dos transtornos mentais de quem trabalha a noite.

Enquanto a aeromoça se afivelava na minha frente em sua pequena poltrona, e o avião corria na pista, lembrei das horas de vôo do meu pai. Dos aeroclubes no interior do caixa prego. Das noites passadas em banco de praça.

Lembrei das minhas noites em claro. Pensei no quanto os "bons momentos" dependem dos momentos menos bons. Do sangue de quem trabalha? Talvez seja isso. Do sono perdido. De uma ânsia estranha em querer fazer tudo certo e "ir pra frente".

Não, esse não é um elogio do trabalho. Tampouco uma ode ao descanso. Os dois bondes estão recolhidos. QTI 17. Observo os motorneiros da cidade. Vejo a mim neles. Nas minhas férias, sempre observo as pessoas que trabalham e me vejo nelas. Cansada, automática, tomando café sem parar, sonhando acordada.

Fazem eco as palavras antiquadas: "trabalhadores de todo o mundo, uni-vos".

Rapidamente soterradas por anúncios publicitários de aeroporto.

Estar em Portugal é ser e não ser estrangeiro ao mesmo tempo. Sensação mais esquisita! E sim: eles são desorganizados como nós. Talvez até mais. E existe no ar um quê inexplicável de Brasil. E muita melancolia no mar em frente à torre de Belém.

Assim como Brasil é o eterno país do futuro, Portugal é o eterno país do passado.

A chegada de manhã. As ruas vazias. Amanhece somente as 8 no outono. Uma sensação de "cidade" que certamente pertence à década de 70.
Comments: meet ze monsta.

Sunday, October 9th, 2016

Subject:Sábado
Time:1:36 am.
Hoje, no carro, voltando pra casa. Um sábado lindo, de sol.

Lembrei dos sábados com a Andreza no centro. Lembrei principalmente da ordem da minha mãe: volte antes de anoitecer. E eu sempre voltava!
Comments: meet ze monsta.

Sunday, September 25th, 2016

Subject:São Bernardo
Time:5:44 pm.
Morando em São Paulo, senti a diferença em relação à São Bernardo. Que saudades dos finais de tarde aos sábados e domingos de ruas vazias. Da neblina. Do chiado da linha de transmissão ao lado de casa. Da fumaça das indústrias. Daquela melancolia sem fim. Quando fico na minha mãe gosto de olhar a paisagem da janela longamente. Os espaços sao maiores. São Bernardo é cinza. De um cinza esquecido em algum lugar dos anos 80, época em que o desenvolvimento industrial do país ainda era um projeto. De um cinza sem o menor charme. De um cinza que sou eu adolescente. (Até o fim dos meus dias serei a menina adolescente com moletom de surf velho e cigarro Hollywood nos bolsos, andando embriagada pelas ruas).

Aqui em casa, meu quarto é quase um bunker. Sem janelas, sem luz natural. Muitos livros, silêncio. Uma espécie de mini São Bernardo...

Mas mesmo assim o frio úmido e o silêncio fazem falta. Aquela cidade e sua tristeza meio sem graça de pé de serra sou eu!
Comments: meet ze monsta.

Tuesday, September 20th, 2016

Subject:Sabiá
Time:8:26 am.
Enquanto o dia amanhecia e os passarinhos cantavam auspiciosamente, lá estava ele, o sabiá preso na retificadora de alta tensão. Há dois dias, disseram os guardas. Meu colega sozinho na estação e eu ali, apressada, repondo alarmes. A princípio, pensei que a presença do sabiá fosse uma mariposa. Saí da retificadora sem me importar muito: "ele vai entrar por onde saiu". Não pensei que não existem entradas para um sabiá ali. Depois o guarda revelou: "ela" (para eles o pássaro era fêmea) se esgueirou pela janela basculante e entrou. Por uma fresta. Após ouvir a história, resolvi voltar, atendendo os pedidos dos guardas.

Abro as duas portas e nada. O bicho voa assustado, esgotado, sem atinar com as saídas disponíveis. Pousa várias vezes sobre os barramentos de 22 mil volts, e eu não consigo imaginar contraste maior entre leveza, delicadeza, e brutalidade. Não consigo espantar ele dali: o barramento, inofensivo pra ele, para mim é fatal, bicho ligado à terra. O dia amanhecia mas seria sempre um pesadelo pro passarinho preso ali, um sonho mau de chiados de alta tensão, sons metálicos, estrondos.

Não alimento pelos animais um amor que falseia um "naturalismo" que não possuímos. Somos milênios de cultura. Somos os criadores do horror e glória da energia aprisionada. Avisei a central: os restos do bicho morto podem danificar os equipamentos. Torci, logicamente, um pouco para que ele saísse vivo dali. Mas foi o guarda quem me alertou. Não fosse isso, a indiferença - a mesma que temos pelos frangos que comemos - teria prevalecido.
Comments: meet ze monsta.

Thursday, September 15th, 2016

Subject:abraço
Time:9:42 pm.
Mais ou menos onze e meia. Me chamam para retirar um objeto que caiu na via. Com fome e cansada, atendo ao chamado irritada. Estão lá embaixo um colega, uma mulher e uma criança de mais ou menos uns... Três anos, acho. Com a laterna ilumino a escuridão da via. Surge um pedaço de plástico alaranjado, pequeno, espécie de helicóptero de brinquedo. Muito simples. Penso: nunca tirei nada tão insignificante desse buraco. Mas não me irrito mais: a educação e a simplicidade da dupla para quem eu ia salvar o helicóptero me acalmou. Bem.

Desço com o gancho. Rapidamente, a central autoriza minha atuação. O menino, olhos grandes e observadores, finalmente se acalma e senta no banquinho. Lembro da época em que os brinquedos eram tudo pra mim. Geralmente brinquedos como o dele: considerados "de menino" e simples, de plástico, que minha mãe comprava na feira. E, talvez por não ter tido filhos, me sinto um pouco criança também. So que naquela aventura eu sou grande e forte - a moça que resgata as coisas do fundo do chão.

Num só golpe resgato o brinquedo. Abro o gancho e, feliz da vida, o menino pega do chão o brinquedo. Nem espera eu recolher (sim, gosto de recolher do chão o objeto e entregar na mão do usuário). De supresa, ganho um abraço do menino. A mãe me abençoa. O colega, que tudo observou, diz assim: "tá vendo? Você ganhou o dia hoje!". Digo a ele, rindo: "ganhei mesmo! Até um abracinho!". Nessa alegria, subo as escadas com o gancho cor de laranja.

Retiro o que disse sobre a insignificância do objeto. Nunca retirar algo da via foi tão bom.
Comments: meet ze monsta.

Saturday, September 3rd, 2016

Subject:Chalámov
Time:9:47 pm.
Para além da consciência aguda da vida que brota do estado de extrema privação, o que se destaca no livro de Chalámov é a ausência de contraste interior.

Explico melhor: em Primo Levi, outro grande autor dos campos de concentração do século XX, temos a onipresença narrativa de uma noção burguesa de "dignidade do sujeito" que está sendo sistematicamente pisada e humilhada pelo ambiente e pelas autoridades nazistas.

Mas a Rússia não é exatamente a Europa: na Rússia a noção de "individualidade burguesa" nunca chegou a se conformar de forma plena (assim como no Brasil). A noção da "dignidade da pessoa humana" é uma frase na constituição brasileira. Talvez seja um ideal russo. Só isso.

No livro de Chalámov isso aparece de forma nítida na forma da narrativa. A violência e a privação surgem sem matizes: como se sempre tivessem existido e o bárbaro campo de prisioneiros seja somente uma forma extremada dessas práticas. Assim como a neve cobre tudo, no caráter russo a violência cobre tudo em tons de branco sujos de sangue. Em termos de arte, o assunto rende "menos" do que no caso de Primo Levi, pois a ausência do contraste provoca uma monotonia que embota o pensamento.

A história diz: a ignorância nos priva da consciência da dimensão da violência. A pobreza material se transforma, no longo prazo, numa pobreza espiritual incapaz de ver no horizonte o verdadeiro sentido da palavra "dignidade".

Chalámov poderia tranquilamente ser um autor do século XXI. Primo Levi, não.
Comments: meet ze monsta.

Thursday, September 1st, 2016

Subject:futuro e passado
Time:8:58 pm.
Nas noites de verão, eu e meu amigo de infância brincávamos de jogo de memória. Era um jogo da companhia CPFL, na qual o pai do meu amigo trabalhava. Todas as hidrelétricas do Brasil estavam representadas ali. Lembro de Barra Bonita, Sobradinho, Furnas, Ilha Solteira, Marimbondo. As pequenas cartas tinham fotos de cachoeiras, rios, edificações das usinas. Eu adorava jogos de memória. Sempre fui boa neles. No tampo escuro da mesa de madeira, aquele jogo significava o fim do dia, o jantar próximo, o acolhimento das luzes da casa em meio ao escuro que reinava ao redor. O anoitecer sempre foi meu momento preferido do dia. Aquela hora em que a luz do sol some e as luzes artificiais se acendem. O anoitecer sempre foi, pra mim, uma promessa de um sentido maior, de uma luz interior pra longe da ofuscação solar.

As figuras na mesa evocavam lugares distantes. As figuras na mesa eram, estranhamente agora percebo, meu futuro: Emiliano havia trabalhado em Marimbondo, medindo as terras para a construção da usina. E eu trabalharia operando equipamentos de tensão, um dia. E durante as noites, que sempre foram queridas para mim.

Eu gosto de memória, mas não sabia que ela projetava o futuro também. Estranho isso. (Embora o futuro verdadeiro esteja, neste momento e para todos nós, no escuro mais profundo do meio do mato, lá onde a putrefação acontece).
Comments: meet ze monsta.

Sunday, August 14th, 2016

Subject:Dia dos
Time:10:00 pm.
Carreguei em meus ombros, hoje, o peso de uma maturidade esquisita.

(Essa frase poderia bem definir minha vida).

O peso de uma maturidade que eu não queria ter:
Que não condiz com minha idade.

(Uma certa ansiedade por ser velha. Tudo se justificaria na velhice? Não sei).

Andei pelo centro de compras junto às minhas origens. O centro de compras cheio de espelhos.

Olhei pra mim mesma nos inúmeros espelhos do centro de compras.

Inúmeros espelhos. Infinitos espelhos. O vazio onisciente do capitalismo mais que tardio.

Agradeci, freudianamente, ao super-ego chato que me dizia: segue em frente. O chato. O "faz o certo e resolve os problemas" que me guia até hoje.

Olhei pra mim mesma na merda do centro de compras. Enquanto amava contraditoriamente os meus de carne e sangue, desejei a mim mesma:

Feliz dia dos pais.

(A mim mesma).
Comments: meet ze monsta.

Wednesday, August 3rd, 2016

Subject:Boi morto
Time:9:17 pm.
Não, eu não gosto de bichos, ou melhor: não alimento por eles a idolatria das redes sociais ou faço deles um escape pra minhas carências. Na última noite da rodada, havia um cachorro na praça da estação. As quatro e dez da manhã, fui ver o bicho, irritada pelas burocracias que deveria enfrentar para retirá-lo dali.

Havia convulsionado no fim da noite. Aparentemente, estava intoxicado. Ao seu redor, um pedaço de camiseta sujo, um pratinho com carne, vômito do próprio bicho e, nas proximidades, o vômito de um bêbado. O cachorro em si estava sobre um pedaço de isopor. Alguém havia tentado dar algum conforto pro animal - aquele tipo de caridade pela metade que mais atrapalha do que ajuda. Porque afinal ninguém o levou para um veterinário.

Porque a morte assusta. Fosse uma cachorra parida com seus filhotes, a comoção seria geral. Os cuidados, inúmeros. Os visitantes, vários. A vida, a vida imunda, atrai e comove as pessoas. A morte não. A morte atemoriza. Apavora. Enoja.

Naquela sujeira toda, a morte do cachorro era limpa como uma fogueira hindu.

Explico melhor. Meu ódio se transformou em algo sem nome ao olhar o cachorro. De porte mediano, cachorro de rua. Os olhos dele olhavam para onde? Para onde olham os olhos dos bichos e gentes que morrem?

Um fio de luz sagrada saia dos olhos do cachorro, abertos, que não piscavam mais. Por vezes ele respirava e sacodia de leve as orelhas. Já estava em outro lugar. Já era chão, misturado à terra e ao vomito.

Mas o que mais me apavorou - e de certa forma perturbou minha primeira folga - foi que, ao ver os olhos do cachorro, pensei: "todos nós seremos esse cachorro um dia. A morte iguala não somente as pessoas, a morte nos iguala com os bichos, o nada assola todos nós".

Foi isso que pensei, sentindo dentro de mim o mesmo abismo que sinto, às vezes, antes de dormir, deitada na cama contemplando o escuro que antecede o abismo do sonho.

Mas havia uma estação para abrir, e olhos que ainda contemplariam um tanto de movimento e luz e vida antes de se depararem com aquilo que o cachorrinho via naquele momento.
Comments: meet ze monsta.

Monday, July 4th, 2016

Subject:A história de Luigi
Time:7:13 pm.
Veio da Itália, num navio, com duas irmãs mais novas. Foi parar no Oeste Paulista. Já chegou devendo o dinheiro das passagens para o fazendeiro. Veio trabalhar no lugar de escravos.

Se esfalfava de trabalhar e a dívida só aumentando. Na fazenda, havia um belo alambique e cana plantada, além do café.

Junto com outros italianos, armou a fuga. Capricharam na aguardente do fim do mês. Os capatazes receberam garrafas. Embriagaram-se. Enquanto isso, os imigrantes arrumavam seus carroções para a fuga.

Logo cedo, muitos escaparam. Da fazenda, do trabalho esfalfante, das dívidas enormes. Luigi ficou em Ribeirão Preto. Exercendo a profissão que trouxe da Itália: sapateiro. As duas irmãs, cardadoras, o ajudavam. Numa bela feita, atravessando a rua, encontrou o fazendeiro. Se identificou. Disse ter uma dívida com ele. Assim como não teve medo de fugir, não teve medo de se identificar. Disse que ia pagar a dívida. O fazendeiro tornou-se cliente do sapateiro.

Não sei se essa história é totalmente verídica. Logicamente, é uma fábula familiar. Mas me foi contada numa cantina do Bexiga, entre nhoques, cabrito, vinho e lágrimas, no ano da graça de 2016. Luigi é meu bisavô.
Comments: meet ze monsta.

Saturday, June 25th, 2016

Subject:Vinho espanhol
Time:5:41 pm.
Poema em prosa número 1

Numa madrugada fria dessas, ouvi o som dos cabos de 125 vcc que passam sob a linha de bloqueios de Jabaquara. Entre embalagens de chiclete, amontoados de cabelos, sujeira milenar e bilhetes perdidos, eles diziam.
Do ódio do explorado contra o explorado.
Do cansaço sem fim.
Dos pedintes que se multiplicam ao infinito.
Da pobreza. Da incompreensão. Do rosto de ódio de Baudelaire num retrato do século retrasado. De um tal Walter Benjamin que morreu fugindo de totalitarismos e escreveu sobre o francês flaneur.
Da descrença.

Deitada no chão ouvindo os cabos de tensão continua adormeci.
Vi então barcos de imigrantes no Mediterrâneo.
O capital que se acumula na mão de um por cento.
Ruas cheias de imbecis. Política transformada em paixão cega.
Vi imigrantes indo e vindo.
A pobreza. As mãos sobre a marmita. As mãos que pedem. Pastas de papéis em filas intermináveis para receber quantias irrisórias. Reclamações. Ódio em cima de ódio.
Vi meu cansaço na cama. Vi as promessas de consumo que me iludem. Pra que lamber o chão da realidade?

Sim, eu adormeci ouvindo o chiado mudo dos cabos que alimentam catracas. E quando acordei, tive a certeza do inferno.
Comments: meet ze monsta.

Saturday, April 30th, 2016

Subject:Um certo eu
Time:12:59 am.
Inevitável lembrar de Sao Bernardo quando o dia fica cinza e frio.

Inevitável lembrar da menina estranha de moletom azul que, fumando, me olha feio em todas as esquinas quando o tempo esfria assim. Com ódio e ressentimento no olhar, ela diz ironicamente, entre uma tragada e outra: "manda tudo se foder. Nunca deixe de ser você". Não levo em conta: ela usa tênis furados e traz uma bolsa velha, cheia de livros dentro, e passes de ônibus escolar, e mais cigarros. E talvez uma garrafa de vodca barata. Mas a diaba me segue em todas as esquinas, cantando um amor perdido e declarando fidelidade a uma mágoa que nunca passará.

Garoa. Faz frio. A silhueta dos telhados da industria metalúrgica se desenha contra o céu nublado. Fumaça de cobre derretido.

(Essa menina sou eu).
Comments: meet ze monsta.

Saturday, February 20th, 2016

Subject:Macabéa
Time:1:25 am.
Na estação Ana Rosa, há uma loja de roupas femininas. Dia desses passei por lá e namorei um vestido preto, com bolinhas brancas. Entrei pra perguntar o preço mas não levei - estava sem meu cartão.

Hoje, voltei lá e perguntei pelo vestido, que não estava mais na vitrine. A vendedora procurou pra mim. Enquanto eu estava na loja, um rapaz bem simples escolhia um vestido pra namorada. Falava baixo, visivelmente desconcertado por estar ali, único homem na lojinha cheia de mulheres. Mesmo assim, escolheu com cuidado o vestido. Sabia do gosto da namorada. Em nenhum momento eu olhei pra ele diretamente, com receio de deixar ele mais sem graça.

Saí da loja com a impressão de ter encontrado, ali naquela loja cheia de ruídos de trem, o espírito de Macabéa. Ou o sorriso amargo da Clarice Lispector. Provei o vestido por sobre minha roupa. O corpo moído pelo trabalho. 65 reais.

"Macabéa eh café frio", "Macabéa só faz chover". E a Macabéa era eu. Não era o moço simples, nem a namorada dele, que soube se fazer amar ao ponto de ele ter o cuidado e a coragem de se enfiar numa loja de roupas femininas e comprar um vestido que talvez ela receba com desdém - pois quem sabe se fazer amar sempre sabe desprezar.

A Macabéa era eu, que sempre me banquei, que hoje consigo comprar os sapatos e roupas mais bacanas, mas que saí sozinha da loja. Com algo que comprei pra mim mesma. Um vestido de bolinhas. Espero até hoje a coragem e a delicadeza de um homem que entre num estabelecimento - de roupas, chocolates, flores - e compre algo pensando em mim como aquele rapaz fez.

No ônibus sorri amargamente e pensei: "esse homem sou eu". Essa Macabéa sou eu, também. Chovia.
Comments: meet ze monsta.

Sunday, April 10th, 2005

Subject:I envy the road, the ground you tread under
Time:8:37 pm.
Mood: gloomy.
I'd shake from your spell,



If it weren't for my drinking



And the wind bites more bitter with each light of morning.
Comments: 4 thoughts - meet ze monsta.

Wednesday, March 23rd, 2005

Subject:IT'S MY VODOO WORKING
Time:2:13 pm.
Comments: meet ze monsta.

Wednesday, December 22nd, 2004

Subject:o motorista de táxi
Time:5:29 pm.
Mood: cold.


"A solidão me seguiu a vida toda, em todo lugar. Em bares, carros, calçadas, lojas, em todo lugar. Não há como fugir. Sou o homem solitário de Deus".
Travis Bickle
Comments: 1 thought - meet ze monsta.

Saturday, February 7th, 2004

Subject:shame is the shadow of love
Time:8:36 pm.
Comments: 1 thought - meet ze monsta.

Sunday, August 3rd, 2003

Subject:é uma festa portuguesa, com certeza
Time:8:04 pm.
Mood:sertanejo.
Tenho novidades pululantes pra me contar mas no momento me encontro podre.
Comments: meet ze monsta.

LiveJournal for buriedbird.

View:User Info.
View:Friends.
View:Calendar.
View:Memories.
You're looking at the latest 20 entries. Missed some entries? Then simply jump back 20 entries.